Quando olhamos um velho com pesar e asco nunca pensamos como é que vamos ser quando essa idade se apresentar para nós. E, como é possível que sintam esta peçonha de mim?Poderei acabar os meus dias no chão de um quarto frio com cheiro da minha própria urina, rastejando, dando ordem ao meu corpo para gritar, mexer-se, pedir ajuda, mas ele parece não obedecer. Morro mesmo. Na súplica por um fim melhor, mais digno, mais confortável e menos só. Só resta o meu sangue, a minha urina as minhas vísceras com a revolta de uma vida e, um corpo já morto à muito. Só, tão só que é morrer na pobreza de relações de bem-querer.
Por outro lado, pode o meu corpo ser persistente e constante mas o meu julgamento desertar de mim mesmo. Como se desistisse de me orientar neste mundo bravio e abandonasse este pedaço de carne ao sabor dos dias solitários. Vivo impregnado no meu próprio excremento. Não conheço outra forma de estar, apagou-se deste meu presente desagradecido de toda uma vida de vitórias chorosas e derrotas amargas.
Vou vestir-me para sair, não sem antes tomar café com os medicamentos. Mas, o que é que eu ia mesmo fazer?
Esqueci-me.
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